Neste artigo não falo especificamente de design, mas sobre arte. Como para mim são eventos totalmente conjuntos, o tema estará sempre presente aqui.
— De que cor são aquelas nuvens?
— Brancas, senhor.
— São mesmo? Olhe novamente… Então, que cores você vê naquelas nuvens?
— Tem um pouco de azul… e amarelo… e até verde!
Este é o diálogo entre uma jovem criada holandesa — Griet — e o seu senhor — o pintor holandês Johannes Vermeer. O filme que conta esta história: Moça com brinco de pérola. A relação com o design? Total — este não existe sem a arte.
Vi o filme três vezes. Por três vezes fiquei encantada e sempre quis escrever sobre ele, suas cores, a luz, a direção de arte, os detalhes mínimos e máximos que temos em qualquer pintura, qualquer criação e que estão na obra, em cada cena. É possível, fácil até, dar uma aula de história da arte ou de design gráfico usando este filme como tema.
Composições equilibradas, geometrizadas, existem em todas as cenas. Uma perfeita referência ao trabalho de Vermeer que tinha essa como uma das características de seu trabalho, tanto que foi um dos primeiros pintores do período barroco — conhecido também como a Idade de Ouro Holandesa — a usar a técnica da câmera escura como referência em suas obras. Observava cada detalhe de luz, sombra, linhas e perspectiva.
Mas Vermeer era mais que isso, era considerado “O Mestre da Luz”. Trabalhava luzes e sombras como nenhum outro em sua época. Buscava outras cores na luz e na sombra, cores que outros pintores até então não usavam.
O diálogo inicial reflete essa busca. Ele ensina a sua criada a perceber a cor além das cores. Só por isso já é uma aula de design, mas este filme vai mais além.
Uma porta, ou uma janela, se abre, a luz entra e recorta diagonalmente a sala, deixando o ambiente dividido entre luz e sombra. A cena ocorre e sentimos como se os personagens andassem por quadros, como se fossem obras de arte vivas. Em todo o filme existem recortes de luz e sombra mostrando como cada superfície reflete em cada momento. E mais ainda, como a alma humana pode reagir a estes momentos.
A direção de arte mostra então o motivo de o filme ter sido indicada ao Oscar. Cada ambiente é pensado como um quadro. Matematicamente pensado, geometricamente calculado. A descoberta da luz de como ela é importante ao filme e a obra de Vermeer é constantemente reafirmada na beleza de cada enquadramento.

Uma cena demonstra claramente essa preocupação: Griet, a criada, preocupa-se em limpar as janelas de vidro do ateliê do pintor e pede autorização à patroa — mulher de Vermeer. Esta não entende e questiona a sua preocupação. A resposta de Griet é simples: vai melhorar a qualidade da luz, já que o vidro está empoeirado.
Mas essa beleza e preocupação com a luz, sombras e cores não estão presentes apenas nos ambientes internos. Cada vez que Griet anda pelas ruas da cidade, dependendo do horário a perfeição com que a cena é pintada, criada, mostra o outro olhar do artista para a luz dos ambientes vivos, que cria sombras sem recortes geométricos de portas ou janelas, mas com recortes naturais feitos pela umidade ou pela temperatura do ar. Alguns podem pensar que o todo filme aposta nesta técnica. Mas não, não como em A moça com brinco de pérola.
Para finalizar, a magia que completa todas as cenas está na linguagem simbólica. Poderia destacar diversos momentos, mas fica um que me tocou especialmente: o momento em que Vermeer prepara Griet para pintá-la, colocando nela o brinco de pérola.
Griet não tinha orelhas furadas e pede para que ele, Vermeer, o faça. Existe uma atração silenciosa e clara entre os dois — que nunca se realiza — mas na suavidade deste ato, quando Vermeer perfura a delicada orelha de Griet, a atração se concebe e torna-se real, resultando no quadro A moça com brinco de pérola. Ao vê-lo concluído, a moça diz:
— Você enxergou dentro de mim!
E nós dentro de Vermeer.
Moça com brinco de pérola (1666) é conhecido como a “Monalisa de Vermeer”, uma das obras mais importantes do pintor Johannes Vermeer (1632 – 1675). O filme não é uma biografia real da relação entre Vermeer e sua modelo, mas claramente é real em relação à maneira como concebia sua arte. Se alguém acha que contei o principal, está enganado, Moça com brinco de pérola é mais que isso, vale a pena ver, rever e sempre aprender em cada detalhe deste belíssimo filme.
Site oficial: http://www.girlwithapearlearringmovie.com/site.html
Escrito por: Márcia Okida
Designer gráfica. Professora nos cursos de Produção Multimídia, Jornalismo e Publicidade & Propaganda. Coordenadora do curso superior de Produção Multimídia. Universidade Santa Cecília (UNISANTA).
Tags: filme, coluna, marcia okida, brinco de pérola
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Excelente artigo, Márcia!
Realmente, design e arte andam de mãos dadas, e quando um filme consegue transmitir o amor pela arte em diálogos e imagens, está perfeito!
Já conhecia as obras de Vermeer e a música do flme, que é belíssima, mas ainda não o assisti. Preciso corrigir isso rapidinho!
Grande abraço.
Otimo comentario e adorei suas conclusões.
Porém o comentario que ela fez sobre ele ter visto dentro dela , foi quando ele estava justificando a necessidade do uso do brinco , que faltava alguma coisa e mostrou a pintura para ela mesma concluir, nao foi ao concluir o trabalho.
Abracos
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Espetacular este filme.
Estudo o último ano de design de produto, vi o filme e li o livro e como consequência fiz um trabalho na faculdade com o tema deste filme!
Mas foi focado em semiótica, este estudo foi algo que nunca sairá de minha memória, as relações feitas com a arte, a semiótica, e o design… lições que, se percebidas suavemente no filme, irão guiar qualquer designer na sua profissão.
Imperdível!
04/08/2010 / 04:28 PM